- Adoro chuvas, mas são um cenário de certa forma clichê, pena que é nelas que quase tudo acontece, eu não posso evitar -
O vento úmido corre pelo meu rosto, caindo de quando em quando finas gotinhas de chuva fria. Ele vem da janela aberta que fica ao lado da minha cadeira no ônibus. Quando ando de ônibus me sinto dopada, porque o movimento me enjoa, mas é aquele momento que as pessoas enfim me deixam e eu posso pensar, pensar talvez no quanto eu sou pequena e insignificante, o que geralmente me assusta.
Em uma parada ou outra, uma certa quantidade de gente ia descendo, e ninguém mais subia, era exatamente aquela quantidade de pessoas de rostos memorizáveis. A chuva aumentava e eu escutava o barulho das janelinhas se fechando, uma a uma. Eu não ia fechar a minha, porque água purifica e vento leva para longe, uma lógica que na prática e naquele momento não fazia tanto sentido assim.
O ônibus ia devagar, talvez o motorista tivesse medo de bater no meio de tanta água, eu estava quase dormindo e minha cara indicava que eu carregava todo o peso do mundo, era exatamente isso.
Mais uma parada, alguém finalmente subia, pena que era alguém que te faz acordar de noite, suando, desesperado para que a manhã clara comece logo. Uma senhora mal vestida para certos padrões impostos, a cara ressecada pela força do sol, um rosto mefistofélico, seu corpo parecia castigado pela maldade humana, haviam feridas saradas e abertas espalhadas por si, o cabelo parecia liso e sedoso se algum pente passasse pela cabeça, eram grisalhos e longos, acostumados a serem presos mas que hoje respiravam liberdade. Ensopada da cabeça aos pés, diga-se de passagem.
Entregando algumas moedas ao cobrador, passou pela roleta e de todas os lugares vazios que poderia ocupar, veio ao meu lado de acomodar.
- Boa noite- ela disse.
- Olá, boa noite- eu lhe respondi.
Seu hálito era cachaça pura.
- O tempo está ruim lá fora- ela prosseguio- já peguei muitas tempestades assim, e até hoje o que mais me assusta são os trovões com relâmpagos, elas parecem que vão nos explodir de dentro para fora.
Ela sorriu.
- Sim.
- Os cientistas, minha filha, dizem que se as chuvas vem vindo com mais intensidade e o sol nasce cada vez mais para nos punir, a verdade é que isso tudo é uma bomba relógio, que em determinada hora explode o que tinha que explodir e recomeça, fazendo uma outra '' humanidade ''que acredita em um progresso.
Eu olhava atenta e desconsertada, com certo pânico, mas presa. Senti uma aceleração no ônibus, e a chuva cada vez mais pesada. A senhora ria entre um intervalo de falas, mas logo retornava.
- Você acredita em deus, minha filha ?
-Acho que sim, talvez, é difícil, não sei.
- Eu não.
Isso me surpreende, de certa forma, me surpreende.
- Eu sou deus- ela me diz. Você é deus e todos nós somos.
- Você não acredita em você ?
- Possivelmente não.
Freiando bruscamente o ônibus, o motorista rapidamente acelerou, acelerou tanto que o vento que corria se transformava em um tornado devastador. As luzes começaram a piscar, enlouquecidas e eu não acreditava naquilo, não é o tipo de coisa que acontece, minha voz sumiu para que eu não pudesse gritar, não sabia mais onde estava nem porquê.
Me olhando fixamente e quase que subindo em cima de mim, a senhora aumentava o timbre de sua voz e falava:
- E como isso é possível ?! Como isso é possível ?! Você deve se perguntar porque deus se matou e se espalhou em cada um de nós, sabendo que o caos formado de cada pequena quantidade de poder iria fazer a morte, a gulosa e incansável morte! Acredite! Acredite, filha da puta, no que está óbvio!
Minhas pernas não se mexiam, meu corpo não respondia e meu ar sumia. Acho que desmaiei, ou morri, não sei.
Quando acordei, as luzes ali estavam e a chuva tinha diminuído, minha blusa estava molhada, não da água que vinha da janela, mas do suor frio. Olhei para a janela e vi que era hora de descer.
Levantei com forças que não sabia de onde vinham e quando andei pelo corredor, dei de cara com ela, ali sentada, com aparência idosa e cansada, pálpebras quase cerradas. Puxei rapidamente o sinal para descer, e desci.
Desci enquanto a boca daquela indigente se movia formando um sorriso, um puta de um sorriso que eu nunca vou esquecer.
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