18 de setembro de 2010

Continuous Blues

Podia ver meu reflexo em seus óculos de lentes grandes, sua boca entre aberta coçava para dizer meu nome que desconhecía, a temperatura do seu corpo que aumentava a cada minuto, eu podia sentir, claro que podia.
Ela estava sentada dentro de uma cafeteria de paredes de vidro, ao lado de uma enorme foto do Elvis Costello. Comecei a andar em sua direção, caminhando nas calçadas regulares situadas num bairro comercial que fedia a industria.
- Um carro quase me atropela enquanto vinha na sua direção, amor.
- É verdade ? Que pena...
- Mas estou bem- dou um risinho.
- Que pena que não passou por cima de você.
- Ah- eu calo minha boca por um tempo- Já era previsível que me respondesse isso, fez a mesma coisa semana passada.
- Fiz ?
- Quando eu disse que uma bicicleta quase me mata passando de raspão pela minha cabeça, quando tropecei na descida da rua.
- Peço perdão.
- Aceito o perdão.
- Perdão por ser sincera.
- E pelo o que mais eu perdoaria?
- Não sei, é você quem está perdoando.
- Porque você tem que ser assim ?! Toda semana você senta a bunda nessa cadeira, toma uma merda de um café e aparenta ser exatamente o que não é, uma puta de uma mulher legal.
- Eu sou.
- Mas não parece.
- Mas eu sou.

Caindo nesse truque meu, ela fica me olhando como se quisesse pedir desculpa, mas eu acho que na verdade é um olhar de quem quer me matar.
- Ok- ela finalmente responde.
- Ok ?
- Se eu, de alguma forma possivelmente impossível aceitasse naturalmente que você sentasse e conversasse de verdade comigo, o que iria fazer ?
- Bom, eu ... - começo a gaguejar, o que é meio comum quando não se tem noção do que dizer.
- Então ?
- Acho que perguntaria seu nome primeiramente.
- Acho que eu responderia.
- Qual seu nome ?
- Judy.
- Como Judy Garland ou Judy is a punk ?
- Exatamente, e o seu ?
- James.
- Como Morrison ?
- Pode ser. Eu toco guitarra.
- É mesmo ?
- Sim- eu digo, porque um dia me disseram que esteja onde estiver, tocar um instrumento atrai mulher. Grande merda tocar alguma coisa.
- Grande merda tocar alguma coisa- ela me diz.
- É- eu engulo essa resposta.
- Era só isso que tinha pra dizer ?
- Ainda não tenho um manual de '' como dizer coisas que elas querem ouvir ''
- Devia ser uma edição limitada.

Ela fica nesse jogo comigo, não diz o que quer, mesmo eu sabendo que o fogo por de baixo de sua saia estava se acendendo, eu disse que podia sentir.

- Você faz por dinheiro ou por prazer ?
- Depende do momento, meu amor- ela me diz.
- Agora seria por ... ?
- Isso é você quem tem que me convencer.
- Ah, você quer andar um pouco ?
- Vamos, pode ser, só não quero demorar muito.

Você nunca sai andando à toa, é o que eu sempre pensei, inconscientemente você sabe onde quer chegar.
Nós andávamos, fingindo que não sabíamos o nosso devido lugar naquela hora, só para prolongar algo que mais cedo ou mais tarde aconteceria.
Não estava escuro nem claro, mas as luzes de alguns postes já fervilhavam energia. Estava quente, mas o vento que corria excitando a minha pele, me fazia mudar algumas vezes de opinião sobre o clima. Chegando numa ruela que cheirava a podre, finalmente eu senti que a diversão ia começar.

- O que é esse lugar velho que a gente parou em frente ?
- É só um lugar- eu expliquei.

Ela entra sem fazer mais perguntas, sabia que se perguntasse, a resposta demoraria e seu corpo já queria se despir e brincar com meu brinquedo. Subimos as escadas, abrimos a porta de um quarto e ela malmente esperou que minha calça estivesse fora das pernas.
Enquanto ela ia e vinha em cima de mim, ela cantava entre um gritinho e outro '' this is the end, my only friend, the end (...) ''. Eu achei isso doentio.
O quarto não tinha luz, só a iluminação de um poste que tinha ali perto da janela. Eu podia ver seu rosto, podia vê-la mordendo o lábio inferior e seus olhos revirando. Só que eu não sentia nada, não era o que eu tinha imaginado.
Ao me virar para bruscamente beijar sua boca, ela tinha sumido, desaparecido.
Eu tinha consciência de que aquilo era verdade.
Saí sem roupa do quarto, correndo, mentalmente pedindo para que acordasse. As escadas me derrubaram, me fizeram cair na calçada. Corri como louco e senti gotas, do que eu acho que era chuva, penetrarem no meu corpo como se fossem agulhas. Corri por de baixo de um céu cinza e laranja, sentindo cada vez mais um forte cheiro de vômito. Eu pegava fogo de dentro para fora, estranhamente Cry baby tocava, ecoava, enquanto as formas escorriam para um buraco sem fundos.

Eu pude ver estrelas, enquanto minha matéria era esticada. E eu me ia assim como vim, nu e sem entender.
Isso durou horas, ou apenas alguns segundos, eu acho. Me senti flutuando novamente, sozinho pelo grande, pelo vasto vazio, pelo nada.
Eu sabia que era real, para mim era.

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